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A dor do Pai - A dor da Filha

Escrevo e enquanto escrevo as lágrimas caem espontaneamente, pois sempre que falo de você é impossível não sentir sua falta. Quando você partiu, deixou pra trás sua filha e seu marido, sozinhos em casa com quase 10 cômodos para serem preenchidos pela nossa dor e tristeza... pela sua ausência. Nem eu, nem ele conseguimos nos olhar nos olhos. Levou muito tempo para que um dia falássemos sobre o quanto doeu te perder. E durante esse tempo, os cômodos iam se ocupando com nossas dores, ambas disputando espaço, uma querendo doer mais que a outra. Insuportável e até difícil de entender como uma casa tão grande não conseguir suporte as duas dores.

Para mim, a resposta é que te perder doeu demais, tanto que não cabia no peito, muito menos em uma casa inteira. A dor do pai e a dor da filha precisavam de espaço. Elas queriam se expandir na imensidão do que eram: a tristeza e o vazio extremo de perder de uma só vez as figuras mais importantes da vida de um ser humano; A Mãe e A Esposa.

A dor do pai não suportava respirar o desespero da dor da filha que ficava perdida pelos cômodos e acabava saindo sem rumo pelas ruas. A dor da filha não suportava sentir a pele da dor do pai queimando enquanto tentava entrar pelas paredes da casa, na busca desesperada de ressuscitar a mãe em qualquer móvel ou lembrança restante.

Ruptura - Remedios Varo - 1955
Elas caminhavam pelos corredores da casa, paravam no sofá da sala, caladas, sem arriscar se olharem. Passavam pelos quartos, pelo banheiro que costumava ser da mãe e agora ficava cada vez mais vazio sem seus perfumes e cosméticos. A dor da filha mal conseguia entrar na cozinha porque a imagem  apagada da mãe ali a fazia querer arrançar as tintas das paredes, enquanto a dor pai, parava estática na mesa de jantar, temendo a hora de dormir por precisar voltar no quarto onde uma cama vazia a esperava. Nenhuma delas queria se tocar, porque tinham medo de que as duas juntas só se transformassem em uma dor maior ainda, em ódio, mas ainda assim, diziam uma para outra que iam se apoiar.

A verdade é que elas queriam distância uma da outra, para expandir seu choro, sua falta... seu desespero de não ter mais ali a pessoa que costumava preencher a casa com sua presença. E as dores, empurrando-se nos cômodos, agora tão apertados, caminhavam vagarosamente, quase que envergonhadas em mostrar sua vontade de gritar uma para a outra: "Eu só quero doer!". Tentavam, ainda desajeitadamente se ajudarem e até se consolarem. .. ambas sabiam que se enganavam ao tentar manter uma postura positiva quando tudo que queriam fazer era poder ocupar toda a casa sozinha. Só assim teriam espaço suficiente para sofrer.

Até que um dia, silenciosamente, as duas se olharem e cada uma entendeu que precisavam parar de tentar andar juntas, para seguirem sozinhas. Só assim, ambas puderem doer e ocupar todos os cômodos da casa pela primeira vez depois de anos. E elas até pensaram em se arrepender da decisão de caminharem sozinhas porque a solidão parecia injusta. Porém, quando ocuparam sozinhas todos os cômodos, gritando e chorando com todos os cantos que A Mãe e A Esposa já havia tocado ou estado, puderem finalmente esvair-se de si, espalhando-se pela casa igual a brisa que passa sem notarmos. Aos poucos, cada dor, separadamente, deu lugar a novas pessoas, novos móveis, novos sentimentos; E, dessa vez, nenhuma das duas se sentiu mal por deixarem de doer pela Mãe e pela Esposa, porque elas finalmente tinham servido seu propósito: Doer até ocupar cada quarto, cada móvel, cada canto da casa.

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